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domingo, 17 de dezembro de 2017

Documentário expõe cenário de fome e miséria na capital do país; assista a “Precisamos de doações”

Fotos: Arthur Menescal/Agência UniCeub

Solimar Lima dos Reis teve o primeiro filho com 13 anos. Hoje, são 38 anos de vida e seis filhos para cuidar

Por Arthur Menescal e Giovanna Pereira, da Revista Esquina *
Material originalmente publicado na Agência de Notícias UniCeub

Mais um caminhão chega ao Aterro da Estrutural. Dessa vez, a linha vem do mercado. A espera é grande e a competição pelo que pode ser aproveitado também. Uma mulher vai apressada em busca de comida, afinal, em meio ao lixo vem “muita coisa” boa. “A comida ainda está boa e na validade. A gente aproveita mesmo”. A caçamba se eleva para despejar o carregamento, de riquezas e oportunidades aos que mais precisam. Junto de tantos outros, a mulher corre, se espreme, e, colada à pilha que se forma, tenta selecionar aquilo que mais se parece com uma refeição, como um pouco de arroz, um pedaço de mortadela ainda no pacote. Faz parte do cotidiano, mas as dificuldades e perigos, com o tempo, vão se escondendo atrás rostos de seus filhos. São seis. De repente, um grito, e o que antes parecia claro vira um borrão. No meio do lixo, também tinha uma lâmpada, que se quebra. A visão, agora, está embaçada pelo sangue, pela imprudência, pela necessidade.

O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou nesta sexta (dia 15 de dezembro) que 24,8 milhões de pessoas no Brasil viviam na miséria e com um quarto de salário-mínimo no final de 2016 (há um ano), o que representou um aumento de 53% em relação aos dados de 2014.

Assista abaixo ao filme “Precisamos de doações”:

No centro da Brasília, são seis horas da manhã e está “tudo pronto”. A cidade começa a se movimentar, o cheiro de pão que vem das padarias da comercial embala o início de mais um dia. Cuidar dos carros na frente do supermercado é uma das estratégias para conseguir almoçar. O ponto, hoje, é de Ana. A comida, na verdade, não será servida. Ela tenta pegar nem que seja um pacote de biscoito antes que o container saia dali. No dia anterior, ela conseguiu levar para mãe, de 68 anos e diabética, algo para comer. Mas hoje tem que enfrentar o gerente do mercado que não autoriza a competição entre ela, moscas e pombos que rodeiam o fundo do estabelecimento às margens da L2 na Asa Norte, uma das áreas nobres de Brasília. Ela se indigna: “por que não pode pegar algo que está no lixo?”. Ainda está bom e ela precisa comer.

Fome não mora só às margens do mercado

Daniel tem 23 anos e hoje é quem separa o que chega na cooperativa em que trabalha. Vem de tudo, desde fraldas sujas e lâmpadas queimadas até pacotes de biscoito e sacos de arroz. Tenta recolher o que pode, afinal, mesmo tendo renda, mais da metade do que ele consome vem do lixo. Todo dia encontra algo que mais tarde pode comer, às vezes algumas coisas duram apenas uma refeição, um lanche e outras conseguem render o mês. “É doído de se ver”, mas ele sabe que aquilo pode fazer a diferença em sua alimentação.

O Distrito Federal é uma das unidades da federação de maior desigualdade extrema que evidencia a situação da fome humana. A privação alimentar é uma das vertentes no estudo sobre segurança alimentar. A má distribuição, consumo irregular e inadequação nutricional agravam um problema que volta a preocupar o país.

Em uma cooperativa de catadores na Estrutural são descarregados cerca de oito mil toneladas de lixo todo dia. Não é difícil encontrar alimentos lacrados em meio a todos os dejetos. “Ei, olha aqui, vocês não estavam procurando? Acabei de encontrar”. Solimar quis ajudar ao perceber que os dois repórteres que estavam na Cooperativa não paravam de perguntar sobre a comida que era descartada. Ela tira do lixo cinco pacotes de comida que estavam no último caminhão que chegou. Lacrados. Marcas conhecidas. Para Solimar é uma dor, mas também um alívio. Parte da alimentação dos filhos já está garantida. “Você já levou alimentos do Lixão para casa?”, perguntam os repórteres. “Já”, diz meio tímida, “Conseguia lacrado”, a resposta é enfática.

Solimar Lima dos Reis teve o primeiro filho com 13 anos. Hoje, são 38 anos de vida e seis filhos para cuidar. Mãe solteira e moradora da Estrutural, ela experimenta a vida de quem deve buscar a sobrevivência diariamente. Uma vez ela foi salva pela comida pega no lixão em uma quarta produtiva onde conseguiu levar para casa dois sacos de arroz, dois de açúcar, duas mortadelas, quatro caixas de leite e alguns ovos. No dia seguinte, ela sofreria um acidente que a deixaria sem enxergar por dois meses. Foram dois meses perdidos na busca por uma maior qualidade de vida para seus filhos. Solimar diz que esse foi o momento de maior risco em sua vida, em nenhum outro período ela passou tão perto da fome. Se não fosse pela comida do lixão, ela e seus filhos teriam vivido esse mal.”

“Faça Nosso Dia Feliz”

O barraco em que Helena dos Santos, de 68 anos, mora com a filha e o enteado, no centro de Brasília, já tem 25 anos de história. Metade da idade de uma instituição de ensino privado que está a alguns metros dali. Os alunos que passam por ali podem se deparar com uma um pedaço de papelão preso às árvores e com Helena sentada à beira da pista. No pedaço de papelão, um pedido que acaba soando mais como um questionamento. “Faça nosso dia feliz”, foi o que ela e sua filha Ana Paula, de 29 anos, escreveram para tentar evitar o maior de seus medos: ficar sem comer. A falta de comida é o principal problema enfrentado pela família ultimamente.

Elas não têm estoque. Todo dia é dia de luta. As doações ajudam bastante, mas diariamente existe o medo de não ter o que comer. “No dia que não conseguimos nada, a gente tem que tomar chá e comer pão seco”, Ana Paula diz isso como se contasse uma história pela décima vez. É horrível pensar que ela pode ter se acostumado com a ideia de não conseguir se alimentar e alimentar a mãe diabética, sabendo que essa família não precisaria passar por isso. Existe comida em excesso na capital, o suficiente para suprir 86,74% dos domicílios, de acordo com o relatório divulgado em 2013 pelo Ministério de Desenvolvimento Social, mas não é o suficiente.

Arthur Menescal/Agência UniCeub

Mulher mostra alimentos com validade vencida: em vez do lixo, a barriga vazia

O acesso a essa comida é dificultado. Quantas vezes Ana Paula já teve que correr para pegar comida que seria descartada por supermercado? Enfrentar um gerente que tenta tirar o saco de arroz dela? “Eu sou barraqueira”, Ana Paula sabe que tem que se impor. Se não ela, quem vai intervir e impedir que um alimento vá para o lixo em vez de sua barriga?


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